Vem

Vem, vem, sejas tu quem fores
Não importa se és um infiel, um idólatra
Ou um adorador do fogo,
Vem, a nossa irmandade não é um lugar de desespero,
Vem, mesmo tendo violado o teu juramento cem vezes,
Mesmo assim, vem.

~Rumi


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O Caminho da Individuação

Individuação: processo que conduz o indivíduo à construção da sua identidade.

Video Vimeo, The red pill or blue pill (The Matrix scene)



Para Carl Gustav Jung a individuação é o grande sentido da vida.

O filme Matrix ensina-nos, ou apenas esclarece, o que já aconteceu para alguns de nós. A mudança de padrões e valores e a importância do Amor Compartilhado.


Trilhar o caminho da individuação significa deixar-se conduzir por uma sabedoria maior que Jung denominou Self (o si-mesmo), o centro ordenador e ao mesmo tempo a totalidade de cada um de nós.


Aquele que se individua diferencia-se da multidão inconsciente e adquire autonomia, tornando-se uma totalidade psicológica, autoconsciente, sem divisões internas: um “in-divíduo”. Para Jung, um futuro melhor para a humanidade dependerá de quantos conseguirem individuar-se, integrando o Consciente com o Subconsciente e com o Supraconsciente.


Vivemos na Matrix, um mundo onde todos estão a viver uma programação coletiva, imersos na massa inconsciente, como uma manada onde a individualidade é suplantada pelo coletivo, ou seja, pelos programas mentais desenvolvidos pelos diferentes Sistemas Organizados de modo Arbitrário, políticos, sociais e religiosos.


Um dia uma pessoa começa a desconfiar de que talvez exista algo mais e passa a procurar respostas às suas dúvidas. Passa a viver uma realidade pessoal que difere da realidade coletiva e, por essa razão passa a ser considerado diferente, rebelde, ou, herege.


A individualidade nascente sente-se dividida pois, ao mesmo tempo que a nova percepção e o novo nível de consciência o fascina e atrai, o velho mundo acena com as suas velhas e “seguras certezas” coletivas através dos Sistemas Organizados de modo arbitrário. Está estabelecido o conflito. Mais uma vez A Consciência pode sentir medo de prosseguir, tais as dificuldades que os demais estabelecem.


Os personagens que representam o novo estado de consciência têm de ser mais enérgicos e obrigam-no a “desrastrear-se”, a isolar-se. Depois, no auge do seu sofrimento psíquico, ao ser-lhe exposta a verdadeira realidade em que vivia, reluta uma última vez em aceitar a mudança.


Mas já é tarde.
Estava definitivamente transposta uma fronteira decisiva da sua transformação pessoal.


Não é fácil o processo de individuação. Conhecer e realizar toda a potencialidade de si mesmo requer coragem, perseverança e honestidade. São muitos os obstáculos que surgirão durante a jornada.


A maioria dos que são instigados a mergulhar em si mesmos acaba por desistir ante os primeiros desafios e retorna depressa às velhas seguranças das certezas conquistadas: o velho mundo, mesmo limitado e com todos os seus problemas, é mais fácil de viver que um mundo novo e desconhecido.


Mudar requer sempre disposição para reconhecer os próprios defeitos e isso dói. Dói desapegar-se daquilo em que sempre acreditamos, principalmente em relação a nós mesmos. Dói perceber que na verdade não somos perfeitos, que temos falhas e que, para prosseguir, temos de nos livrar delas. Autoconhecimento traz muitas dores, mas é a única estrada que nos pode libertar e levar à realização pessoal mais verdadeira, onde concretizamos toda a nossa potencialidade adormecida.


A nova Consciência está insatisfeita com a sua vida e vê surgir a grande oportunidade que sonhava. Vê que a sua intuição lhe dizia a verdade e que a realidade é bem maior. Conhece novas pessoas e idéias que a princípio parecem absurdas. O processo é difícil e várias vezes pensa em desistir, mas aos poucos habitua-se à sua nova auto-imagem. Com o tempo vê aflorarem novas forças e habilidades e sente-se cada vez mais confiante. No entanto, crer que é o Predestinado de que fala a profecia já é demais, não cabe.


Só mudamos se estamos insatisfeitos. Se não, por que mudar? Quando os nossos valores ficam obsoletos e as verdades em que críamos já não servem, a vida impõe-nos a transformação.


Intuímos que há algo errado na nossa vida, mas não sabemos precisar o que seja. Aos poucos, certos indícios se apresentam e já não temos como esconder de nós mesmos: o caminho está à frente e ele pede-nos uma confirmação. A vida far-nos-á passar por inúmeros testes, apresentar-nos-á pílulas azuis e vermelhas.


Precisamos estar atentos para seguir a intuição.
Ela sabe o caminho.


É nesses momentos decisivos que surgem os autoboicotes, tão comuns. Fingimos não ver. Fugimos de um exame de consciência e refugiamo-nos em velhas e cómodas “verdades”.


Várias vezes viveremos o dilema: o novo se apresentará e, os velhos hábitos nos chamarão de volta, esticando-nos incomodamente entre dois pólos que nos querem a todo custo. É sempre um instante delicado pois se continuamos a recusar-nos a enfrentar a verdade, a vida chegará a um impasse insuportável e seu curso natural será barrado. Vêm daí as doenças e fracassos como mecanismos da psique auto-reguladora para nos obrigar a uma interiorização, para repensar e retomar o rumo.


Velhos aspetos da personalidade, que já não nos servem, terão de dar espaço a novas forças.


As transformações são acentuadas, sim, mas somente enquanto as olhamos deste lado de cá, do lado do velho mundo. Depois de largarmos o medo de ser o que na verdade sempre fomos, a transformação revela-se um nascimento onde vemos a vida através de verdades mais úteis e abrangentes. Continuamos os mesmos, mas diferentes: sabemos exatamente quem somos.

É esse detalhe que nos distinguirá da massa inconsciente de si mesma.


Olharemos para trás e perceberemos que todas as quedas e traições que sofremos foram necessárias, nada foi em vão. Veremos que todos tiveram seu valor na nossa jornada, os que creram em nós e até os que nos traíram, cada um no seu papel, e que tudo sempre esteve interligado. É como se uma força poderosa e invisível estivesse sempre na condução dos factos, confiando em nós.


Chamam a essa força o nome de algum deus, Tao, mente cósmica, destino, Self (Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo). Chame-lhe o que quiser.

Essa força existe e aguarda apenas que cada um de nós, predestinados que somos, decida despertar de vez e sair da mesmice coletiva.

~Luiz Otavio e Prof. Dias

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