Vem

Vem, vem, sejas tu quem fores
Não importa se és um infiel, um idólatra
Ou um adorador do fogo,
Vem, a nossa irmandade não é um lugar de desespero,
Vem, mesmo tendo violado o teu juramento cem vezes,
Mesmo assim, vem.

~Rumi


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Os Portadores de Sonhos

Em todas as profecias está prevista a destruição do mundo.

Todas as profecias dizem que o homem criará a sua própria destruição.

Porém os séculos e a vida que sempre se renovam criariam também uma geração de amantes e sonhadores! Homens e mulheres que não sonharam com a destruição do mundo, e sim com a construção do mundo das mariposas e dos rouxinóis. Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás da sua aparência quotidiana guardavam a ternura e o Sol da meia-noite.

As suas mães encontraram-nos a chorar por um pássaro morto e mais tarde muitos foram encontrados mortos como pássaros. Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos por um Inverno de carícias.

Foi assim que proliferaram no mundo os portadores de sonhos, atacados ferozmente pelos portadores de profecias que falavam de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de utopias! Disseram que as suas palavras eram velhas... e de facto eram... porque a memória do paraíso é antiga no coração do homem... Os acumuladores de riquezas temiam-nos e lançavam os seus exércitos contra eles. Mas os portadores de sonhos faziam amor todas as noites e do seu ventre brotava a semente que não somente portava sonhos, mas que os multiplicavam e os faziam correr e falar.

E assim o mundo criou de novo a sua vida da mesma forma que havia criado os que inventaram a maneira de apagar o Sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos climas gélidos e nos climas quentes pareciam brotar por geração espontânea.

Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas torrenciais tiveram a ver com isso. A verdade é que, como formiguinhas operárias, estes espécimes não deixavam de sonhar e construir mundos formosos... Mundo de irmãos, de homens e mulheres que se chamavam companheiros, que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se diante da morte, curavam-se e ajudavam-se na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes no seu mundo de açúcar e de vento e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento e
das suas claras percepções... E de lá partiam os que os haviam conhecido portando sonhos, sonhando com novas profecias que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis... Onde o mundo não haveria de findar na hecatombe, mas onde os cientistas desenhariam fontes, jardins, brinquedos surpreendentes para fazer mais saborosa a felicidade do homem.


"São perigosos" - imprimiam as grandes rotativas!
"São perigosos" - diziam os presidentes nos seus discursos!
"São perigosos" - murmuravam os artífices da guerra!
"Devem ser destruídos" - imprimiam as grandes rotativas!
"Devem ser destruídos" - diziam os presidentes nos seus discursos!
"Devem ser destruídos" - murmuravam os artífices da guerra!


Os portadores de sonhos conheciam o seu poder e por isso nada achavam de estranho...
E sabiam também que a vida os havia criado para se proteger da morte que as profecias anunciam!
E por isso defendiam a sua vida até à morte!
E por isso cultivavam os jardins de sonhos e exportavam-nos com grandes laços coloridos! E os profetas obscuros passavam noites e dias inteiros vigiando as passagens e os caminhos à procura dessas cargas perigosas que nunca conseguiram encontrar... porque quem não tem olhos para sonhar não vê os sonhos nem de dia nem de noite.
E no mundo sucedeu um grande tráfico de sonhos que os traficantes da morte não podiam estancar; em todas as partes há pacotes com laços de fita que só esta nova raça de homens pode ver... E a semente destes sonhos não se pode detectar porque está envolta em corações vermelhos ou em amplos vestidos de maternidade onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres que os carregam.
Dizem que a terra, depois de os haver parido, desencadeou um céu de arco-íris e soprou de fecundidade as raízes das árvores.
Nós sabemos que os vimos...

Sabemos que a vida os criou para se proteger da morte que as profecias anunciam.


texto de Gioconda Belli

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